A agressão mascarada :consequências psicológicas do assédio moral no trabalho

 

A agressão mascarada
Consequências psicológicas do assédio moral no trabalho
 
“A perversidade não provém de um problema psiquiátrico, mas de uma racionalidade fria combinada a uma incapacidade de considerar os outros como seres humanos.” (Freitas, 2001: 13)
 
        A intenção deste texto não é entrar no aspecto jurídico da questão e sim esclarecer o que de fato é considerado assédio moral, como se processa e a gravidade de suas consequências psicológicas para que as vítimas possam reconhecer e se defender.
        Não serão somente os dispositivos legais que solucionarão o problema, é necessário a conscientização por parte da vítima, isto é que ela saiba reconhecer o assédio , entender seus direitos, denunciar para que de fato faça valer a lei.
        Primeiramente é necessário distinguir assédio moral de assédio sexual. Apesar do assédio sexual também provocar constrangimento e humilhação o seu objetivo é compelir alguém a ter ou aturar comportamentos sexuais contra a sua vontade.
         Já como assédio moral podemos entender toda e qualquer conduta abusiva que se manifeste por palavras, atos, gestos, escritos que possam trazer danos à personalidade, à dignidade, ou à integridade física ou psíquica de uma pessoa, pôr em perigo seu emprego ou degradar seu ambiente de trabalho.
        Casos de assédio moral no trabalho já ocorrem há muito tempo, porém somente nos últimos anos tem sido reconhecido e as denúncias  aumentado significativamente.
        Por ser a violência expressa de modo velado, isto é atingindo o psicológico,  o assédio moral  por muito tempo foi banalizado ou até mesmo ignorado.
        No entanto, é preciso ter conhecimento do efeito devastador deste tipo de conduta, as vítimas de assédio moral são atacadas no que elas têm de mais precioso que é a sua dignidade. Enquanto que a agressão física gera marcas visíveis à agressão psicológica gera feridas na alma.
        O assédio moral foi muito estudado nos países anglo-saxões onde também foi denominado de mobbing, termo derivado de Mob. To mob em inglês significa agredir, tumultuar, cercar, atacar.
        Atualmente em vários países, os sindicatos, médicos do trabalho, organizações de planos de saúde e profissionais de saúde, tem pesquisado mais sobre o assunto, já que esse tipo de agressão tem como consequência a destruição do ambiente de trabalho, a queda da produtividade e doenças como estresse e depressão acometendo os funcionários.
        Geralmente o assédio começa como algo inofensivo, começa com tom de brincadeira, porém já com uma conotação ofensiva até que se propaga de forma mais perversa.
        É preciso se ter cuidado para não confundir o assédio moral que se caracteriza por constantes humilhações, com os conflitos que normalmente acontecem dentro de uma empresa.
 
Então, como se caracteriza o assédio moral?
 
A definição:
        É a exposição dos trabalhadores e trabalhadoras a situações humilhantes e constrangedoras, repetitivas e prolongadas durante a jornada de trabalho e no exercício de suas funções, sendo mais comuns em relações hierárquicas autoritárias e assimétricas, em que predominam condutas negativas, relações desumanas e aéticas de longa duração, de um ou mais chefes dirigida a um ou mais subordinado(s), desestabilizando a relação da vítima com o ambiente de trabalho e a organização, forçando-o a desistir do emprego. (www.assediomoral.org)
 
        É importante entender que um ato isolado de humilhação não é assédio moral, para se caracterizar como assédio, é necesário:
 
  1. repetição sistemática
  2. intencionalidade (forçar o outro a abrir mão do emprego)
  3. direcionalidade (uma pessoa do grupo é escolhida como bode expiatório)
  4. temporalidade (durante a jornada, por dias e meses)
  5. degradação deliberada das condições de trabalho
A conduta do agressor (alguns exemplos de assédio moral)
- confiar tarefas inúteis ou degradantes
-desqualificação profissional e/ou pessoal
-críticas em público
-inatividade forçada
-ameaças
-exploração da fragilidade física e psíquica
-estabelecimento de metas impossíveis de serem alcançadas e cobrança constante
-inibição ou coibição de qualquer iniciativa ou inovação por parte do trabalhador
-isolamento do assediado dos demais colegas
-condicionar um benefício ou mesmo um direito à exigências de produção ou limite de faltas
-vigilância constante sobre o trabalho que está sendo feito
-inventar ou produzir erros no trabalho alheio
-divulgação de doenças e problemas pessoais de forma direta e pública e etc.
Perfil das vítimas:
        Normalmente, ao contrário do que muitos pensam, as vítimas não são pessoas frágeis e nem tão pouco incompetentes, geralmente são pessoas bem dotadas intelectualmente, responsáveis, com senso ético, extremamente profissionais, e justamente por isso atraem a inveja de quem os assedia. Geralmente são pessoas crédulas, de certa forma ingênuas, e com necessidade de aprovação e admiração por parte de quem os rodeia. Por isso acabam entrando no “jogo” perverso do agressor.
Perfil do agressor:
        Normalmente são pessoas extremamente narcisistas, autoritários, perversos e possuem o desejo de manter-se no poder a todo o custo, mesmo que para isso tenham que denegrir, humilhar e passar por cima dos outros.
 
Consequências psicológicas do assédio moral:
O assédio moral ataca diretamente a dignidade da pessoa humana e os direitos da personalidade. A tensão gerada pelas atitudes violentas do agressor aliada ao quadro social de desemprego resultam em prejuízos emocionais e físicos de toda a ordem.
 
Pesquisas:
 
Entrevistas com 870 homens e mulheres vítimas de opressão no ambiente profissional revelam como cada sexo reage a essa situação.
Em porcentagem
Sintomas                       Mulheres                     Homens
Crises de choro                100                              -
Dores generalizadas          80                               80
Palpitações, tremores        80                               40
Sentimento de inutilidades 72                               40
Insônia                           69,6                              63,6
Depressão                       60                               70
Diminuição da libido          60                               15
Sede de vingança             50                               100
Aumento pressão arterial  40                               51,6
Dor de cabeça                 40                               33,2
Distúrbios digestivos          40                               15
Tonturas                         22,3                             3,2
Idéia de suicídio               16,2                             100
Falta de apetite                13,6                             2,1
Falta de ar                       10                               30
Passa a beber                  5                                 63
Tentativa de suicídio         -                                  18,3
(Fonte da tabela: Barreto, M. Uma jornada de Humilhações. 2000 PUC/SP.)
 
O assédio moral pode causar diversos danos, tais como:
 
Prejuízos no convívio familiar e social
A vítima por se sentir rebaixada acaba por se afastar do convívio social, inclusive da família.
 
Baixa auto-estima
A vítima passa a ter uma auto-imagem negativa, passa a acreditar que não tem qualificação, os sentimentos de inutilidade e rejeição prejudicam ainda mais sua auto-estima.
 
O estresse
Aceitar a submissão é algo que só ocorre as custas de uma grande tensão interior, uma quebra na homeostase (equilíbrio) do organismo, toda essa tensão é geradora de estresse e este por sua vez desencadeia uma série de manifestações físicas e psíquicas.   Fisicamente o estresse se manifesta através de fadiga, perturbações do sono, falta de ar, irritabilidade, gastrites ou perturbações digestivas, ansiedade e palpitações, estresse, alteração do sistema nervoso, perturbações a nível do sono e ou da alimentação, depressão, eczemas, erupções cutâneas e etc.
A vítima de assédio, no seu extremo, sente-se de tal forma debilitada que é atingida em todos os níveis: pessoal, afetivo, familiar, social e, sobretudo psicológico, devido transtorno profissional vivenciado.
 
Como explica Maria Ester de Freitas:
 
“O assédio moral nas organizações geralmente, nasce de forma insignificante e propaga-se pelo fato das pessoas envolvidas (vítimas) não quererem formalizar a denúncia e encararem de forma superficial, deixando passar as insinuações e as chacotas, em seguida os ataques multiplicam-se, e a vítima é regularmente acuada, colocada em estado de inferioridade, submetidadas à manobras hostis e degradantes por longo período. Essas agressões não infligidas diretamente, provocam uma queda de auto-estima, e cada vez mais a pessoa sente-se humilhada, usada, suja. Na verdade essa situação é diferente dos conflitos que todo o grupo vive e que é parte do universo do trabalho. Uma observação mais ferina em um dado momento de nervosismo e mau humor, não é significativa, especialmente se vem seguida por um pedido de desculpas pelo excesso. É a repetição das situações que vexam o outro e das humilhações sem nenhuma nuance que constituí o fenômeno destruidor.”
O que a vítima deve fazer:
Provar assédio moral não é uma tarefa fácil, por isso é necessário que a vítima procure anotar todas as ocorrências e se possível ter testemunhas.
Procurar seu sindicato e relatar o acontecido para diretores e outras instancias como: médicos ou advogados do sindicato assim como: Ministério Público, Justiça do Trabalho, Comissão de Direitos Humanos e Conselho Regional de Medicina (ver Resolução do Conselho Federal de Medicina n.1488/98 sobre saúde do trabalhador). Se for o necessário procure ajuda psicológica.
 
Assédio moral é crime Denuncie!
 
Telefones úteis:
DRT/RJ - Delegacia Regional do Trabalho do Estado do Rio de Janeiro
Tels.: (21) 2220-9173 | 2220-6569 | 2220-4169 | 2220-2619
Programa de Saúde do Trabalhador - Secretaria Estadual do Rio de Janeiro
Tels.: (21) 2240-1748 | 2240-4418
Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro
Tels.: (21) 2503-2023 | 2503-2024 | 2503-2026
Secretaria Estadual de Saúde do Rio de Janeiro
Tels.: (21) 2299-9162 | 9163 | 9164
Ministério Publico do Trabalho no Estado do Rio de Janeiro
Tel.: (21) 3212-2000
OAB – Ordem dos Advogados do Brasil
Tel.: (21) 2272-2002
ALERJ - Comissão Defesa dos Direitos Humanos
Tel.: (21) 2588-1538
 
A terapia cognitivo comportamental para vítimas de assédio moral:
       
         - age no controle do estresse, através de técnicas de relaxamento
        - treino em assertividade, isto é aprender a expressar de modo adequado suas emoções, defender os seus direitos pessoais de forma honesta sem violar os direitos de outras pessoas.
        -reestruturação cognitiva, o terapeuta auxilia a vítima a ultrapassar a vivência traumática, corrigindo crenças errôneas e os sentimentos de culpa e inutilidade gerados pela violência.
 
O assédio moral não acontece só no âmbito do trabalho, acontece no meio escolar, na família e até entre os casais, se você se interessou pelo assunto, acesse o blog http://terapiaesaude.blogspot.com, onde esclareço um pouco mais sobre o assédio entre casais.
Dica de filme sobre assédio moral no trabalho: Swimming with sharks de George Huang (1995) relata todas as humilhações e todas as torturas que um patrão egocêntrico e sádico pode infligir a um empregado.
 
Por: Ana Lúcia Lima Terapeuta cognitivo comportamental e arte terapeuta.
 
 
Bibliografia:
 
-Assédio moral: a violência perversa no cotidiano
Marie-France
 
-Direito do trabalho da mulher -Por Léa Elisa Silingowschi Calil
 
-ASSÉDIO MORAL: AGUENTE OU DESISTA. SERÁ? -Autora: Anelise Weyrich Baierle
 
 
 
 
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Comentários

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Gostei da postagem Ana Lucia.
Talvez ,por motivos de forma maior, e a nescessidade de alguns em se manter no mercado de trabalho,alguns abusos são tolerados e aceitos como naturais.
Talvez seja este um dos motivos que me levaram a trocar de ambiente de trabalho tantas vezes no passado.
Mas nos dias de hoje, onde temos algumas leis específicas que definem de forma clara estes termos,só fica no prejuizo moral quem não procura seus direitos.
Obrigado ,
José Carlos Vicente
São João da Boa Vista, São Paulo
Brasil