Professor: O que fazer por seu aluno que gagueja?

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Selene

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As vezes o professor faz uma simples pergunta, do tipo "Você entendeu?" ou " Onde está seu caderno?".
E para o aluno que sofre com gagueira, parece que o mundo inteiro vai cair sobre sua cabeça.
O aluno começa, então, a bater o pé no chão, a mexer nos cabelos e a repetir uma mesma sílaba. Ele vai ficando cada vez mais nervoso ao tentar, sem sucesso, responder à sua questão.
O professor percebe o mal-estar e fica na dúvida: espera o aluno a falar ou ajuda-o, completando as palavras?

E realmente, lidar com um estudante gago traz insegurança aos professores.
Algumas atitudes até agravam o problema que se não for tratado, afeta também a auto-estima, a socialização e a aprendizagem do aluno.
Por isso, é importante que os professores sejam orientados quanto a gagueira, fazendo com que sua atuação seja positiva em sala de aula, contribuindo para a melhora do aluno.

A gagueira (disfluência da fala) ainda não tem causa determinante.
Pesquisas já comprovaram que fortes emoções não desencadeiam a gagueira, mas situações acompanhadas de críticas, humilhações e fortes emoções pioram um quadro de gagueira já existente.
É comum o aparecimento de uma fala disfluente na fase pré-escolar. Nessa fase, os pequenos estão automatizando a fala, aprendendo a falar e é natural que apresentem dificuldades ao pronunciar algumas palavras e frases, mas ainda não pode ser considerado gagueira.
Falar não é um ato tão simples assim. Exige certa precisão nos órgãos motores da fala.
A criança na idade pré-escolar está dominando a linguagem, conhecendo seus movimentos e o próprio corpo. É normal que a criança hesite, ou que faça pausas longas e repita palavras, pois é o ensaio da fala.
Essa fala disfluente na criança em fase pré-escolar pode simplesmente desaparecer ou em alguns casos, acaba se instalando e evoluindo para um quadro de gagueira.
Por isso é importante que os pais e os professores sejam orientados quanto as condutas adequadas diante das situações de gagueira.

A partir dos 6 a 7 anos, a fala disfluente deve diminuir progressivamente. O problema começa a ser preocupante quando o aluno repete sons e sílabas, demonstra esforço para falar, faz movimentos repetidos como piscar os olhos, bater a mão ou o pé ou mexer nos cabelos e não olha para a pessoa com quem conversa.
Quando isso começa a acontecer, além da dificuldade em falar, o aluno passa a ter dificuldade em lidar com suas próprias emoções: vergonha, tensão e ansiedade que surgem com as críticas.
Quando os pais ou os professores censuram o modo da criança falar ou pede que ela repita devagar, estão mostrando insatisfação com o modo que ela fala. A insegurança e o medo de falar geram no aluno uma pressão emocional e a gagueira se agrava, o aluno se isola e seu rendimento cai.
Por isso é importante que pais , professores e até mesmo funcionários da escola sejam orientados.
No geral, as pessoas devem ser orientadas a ter paciência e evitar interromper o aluno ou chamar a atenção dele para falar devagar.
Quando a criança é muito nova, nem nota a dificuldade da fala porque importa mais o que ela quer falar do que como fazer isso.
Como a criança não percebe se está se expressando corretamente, não se sente rotulada nem deixa de conversar.
Mas, se o adulto começa a chamar a atenção da criança no momento que ela apresenta a dificuldade da fala e ressalta os seus "erros", a criança começa a dar importância ao jeito de falar e fica com medo de abrir a boca outra vez. É exatamente nessa atitude do adulto que a fala com suas dificuldades naturais da idade, passa a evoluir para um quadro de gagueira.
As vezes o problema nem se agrave tanto ou talvez desapareça com o tempo, mas a baixa auto-estima, a dificuldade de se socializar e a insegurança as vezes ficam.
Disfluências de fala na fase pré-escolar é uma situação que requer cuidados e atenção, porque a criança pode se tornar um jovem frustrado e inseguro no futuro.
Portanto professores, é essencial agir com paciência e naturalmente com o aluno gago, respeitá-lo e incentivar os colegas a fazer o mesmo. Isso vai ajudá-lo a se sentir aceito e à vontade.

Para incentivar e ensinar a turma da classe a lidar com as diferenças, o professor pode elaborar atividades ligadas à linguagem em que todos digam o que pensam e sentem, sempre trabalhando o respeito às peculiaridades de cada um.
As brincadeiras com rimas, músicas e instrumentos musicais também são úteis, pois nessas atividades o aluno com gagueira apresenta menos dificuldade.
É muito importante que o professor olhe sempre nos olhos do aluno.

 

Atitudes positivas e negativas dos adultos
que convivem com crianças ou jovens gagos:.
 
Uma preocupação do professor, diante destas crianças, deve ser:
-como se espera que ela participe em sala de aula? A resposta a esta pergunta depende da criança.
De um lado pode-se ter uma criança que é despreocupada e alegre em participar junto com as outras crianças.
Por outro lado, pode-se ter uma criança na qual a exposição a faça chorar, negar-se a falar ou falar com sofrimento.
 
Professor:
-Assim, é importante que o professor converse abertamente com o aluno. E verificar quais situações em sala de aula ela se sente à vontade para participar.
-O professor deve agir com paciência, calma e pronto a dar apoio.
-É aconselhável que converse com a criança em particular.
-Demonstre suas capacidades e incentive o aluno a participar. Se mesmo assim o aluno continuar não se sentindo à vontade, demonstre que não há problema e que ela poderá sempre contar com você, demonstrando que a aceita como a todos os outros alunos.
 
Em situações de perguntas e respostas:
Outra dúvida do professor é quando se faz perguntas em sala de aula.
Como assegurar o melhor para a criança que gagueja nesta situação?
Aqui vão algumas dicas:
- Inicialmente, até ela se adaptar a turma, faça-lhe perguntas que não impliquem em longas respostas;
-Se for fazer uma pergunta a cada aluno, descubra antes se a criança que gagueja prefere que lhe seja logo perguntada ou depois, pois a preocupação com a fala e a tensão pode gradualmente aumentar a cada aluno que é perguntado;
-Assegure com a turma que todos terão o tempo necessário para responder a pergunta, respeitando se algum colega demorar.
 
Apresentação de trabalho
Este tipo de atividade pode ser muito dolorosa para a criança que gagueja e deve ser adaptada na medida do possível.
-Se a criança preferir ler na frente, por exemplo, ou apresentar um trabalho por escrito, pode ser uma boa solução.
 
Ler em voz alta na sala de aula.
Nem toda criança que tem gagueira gagueja na hora da leitura.
Mas há aquelas que podem até gaguejar mais no ato ler que falando.
Saiba que estas podem ser fluentes caso leiam em coro com alguém.
Assim, sugere-se que a leitura possa ser feita em duplas, em coro, caso haja alguma criança com gagueira na turma.
Não faça a leitura em coro apenas com o aluno que gagueja para que ele não se sinta excluído dos demais.
Gradualmente, quem sabe ele mesmo ganhe a confiança em ler alto sozinho.
 
Lidando com os alunos que riem da criança com gagueira
A gagueira, muitas vezes, não é aceitável, o que pode levar as pessoas que não entendem a criança que gagueja a brincarem com o seu problema.
No entanto, este tipo de atitude pode trazer sérias conseqüências emocionais a mesma.
- se a criança tem sido perturbada pelo seu modo de falar, converse com cada aluno que esteja fazendo isso, individualmente, e explique sobre o problema e as conseqüências desse tipo de brincadeira para o colega.
- caso persista, reúna-os e coloque como inaceitável este tipo de situação, fazendo-os entender o porquê
.- trabalhar com a turma sobre o respeito as pessoas e suas diferenças é um conteúdo sempre bem-vindo em todas as turmas.
 
Pequenas atitudes que fazem grandes diferenças
1. Nunca diga a criança para falar mais devagar, relaxar, respirar antes de falar...
2. A única forma de ajudar o aluno quando estiver gaguejando é ouvindo-o com atenção e paciência.
3. Não complete a frase para a criança. Deixe-a terminar a seu tempo;
4. Auxilie a todos da sala a saberem conversar e ouvir. Todo ouvinte merece atenção.
5. Demonstre que para você interessa o conteúdo da mensagem e não como ela está sendo transmitida. Avalie seu aluno pelo conteúdo.
6. Não solicite da criança que gagueja algo que perceba que não está à vontade para participar.
7. O assunto gagueira não é proibido. Fale sobre ele como se fala sobre qualquer assunto.
8. Faça as adaptações necessárias na sala de aula para auxiliar a criança que gagueja.

O que fazer:
■ Tratar a criança como as demais durante uma conversa.
■ Dar atenção ao que ela diz, e não a como se expressa. Se ela estiver ansiosa, diga que você tem tempo e não a interrompa.
■ Incentivar a participação dela nos dias em que apresentar mais facilidade para falar.
■ Repetir de forma espontânea o que ela disse, tornando a conversa natural. Ao ver que foi compreendida, ela dará menos importância ao modo como se expressa.
■ Reduzir a velocidade de sua fala ao conversar com ela, marcando bem as pausas e olhando em seus olhos.
■ Fazer perguntas que possam ser respondidas com poucas palavras até que ela se sinta à vontade na classe.
■ Pedir aos alunos para ler em conjunto e em duplas. A maioria dos gagos torna-se fluente ao ler acompanhada, pois o ritmo da leitura é demarcado e previsível.
■ Falar com a turma, sem a presença da criança, sobre como é ruim gaguejar e que chacotas só pioram o problema do colega.

O que não fazer:
■ Falar para a criança parar de gaguejar.
■ Pedir para pensar ou respirar antes de falar (isso atrapalha porque o pensamento, a respiração e a fala ocorrem naturalmente).
■ Responder por ela ou terminar suas palavras.
■ Propor que pare a frase no meio e recomece.
■ Demonstrar impaciência, irritação ou desconforto em relação a como ela fala.

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