Uveítes - Inflamações intra-oculares

 O que é a uveíte?

Uveíte é uma inflamação, infecciosa ou não, que acomete total ou parcialmente a úvea e as estruturas adjacentes como o vítreo, a retina e o nervo óptico. Genericamente poderíamos dizer que a uveíte é uma inflamação intraocular.

Para entender melhor é preciso conhecer a úvea.

Imagine o olho como um sanduíche! O recheio é a úvea. Fácil?

Entenda - o olho tem 3 camadas:

Externa: A camada externa compreende a córnea (lente transparente à frente do olho – onde se acomoda a lente de contato) e a esclera (o branco do olho), que é envolvida pela conjuntiva.

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Intermediária
: A úvea é a camada intermediária do bulbo ocular, é altamente vascularizada, sendo responsável pela nutrição do olho. Dela fazem parte a íris (parte colorida do olho com um orifício central – a pupila), o corpo ciliar (produz o humor aquoso, líquido, que preenche a parte anterior do olho) e a coroide (parte vascular situada adjacente à retina).

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Interna: A camada interna corresponde à retina, que possui receptores fotossensíveis e é fundamental para a formação da imagem.

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Portanto, uveíte não é uma doença, mas sim o nome dado a um grupo de doenças que se manifestam com inflamação na úvea (inflamação intraocular).

Quais são as causas?

Na maioria dos casos, a causa da uveíte é desconhecida (uveíte idiopática).

 Processos imunológicos como os fenômenos de autoimunidade (substâncias produzidas pelo próprio corpo que agridem o olho e outros órgãos) ou uma baixa da imunidade do indivíduo podem estar associados.

Em alguns casos é possível que o “stress” físico e emocional, com alteração secundária da imunidade, possa também ser um fator desencadeante de uma crise uveítica.

As uveítes também podem ser:

De causa infecciosa (vírus, bactérias, fungos e parasitas);

Secundárias a traumatismos oculares;

Secundárias às neoplasias (leucemias, linfomas e metástases) – chamadas Síndromes Mascaradas – Pseudouveítes;

Doenças sistêmicas como a toxoplasmose, tuberculose, sífilis, toxocaríase, hanseníase, herpes e citomegalovírus são exemplos de algumas causas infecciosas de uveítes.

 Algumas vezes a manifestação ocular pode ser o primeiro sintoma de uma doença sistêmica.

 Indivíduos com baixa da imunidade secundária a neoplasias, uso prolongado de corticoides, transplantados e com AIDS também podem apresentar uveíte, geralmente causada por agentes oportunistas.

Vale a pena citar as uveítes com etiologia parcialmente esclarecida, que envolvem mecanismos imunológicos complexos e variados, como na doença de Behçet e na síndrome de Vogt-Koyanagi-Harada, além das doenças reumatológicas, como a artrite idiopática juvenil e do adulto, o lúpus eritematoso sistêmico e a espondilite anquilosante, dentre outras.

Quais são os sintomas?

Olho vermelho: o olho fica vermelho devido à dilatação dos vasos sanguíneos que ocorre durante o processo inflamatório.

Visão embaçada: o embaçamento visual é decorrente da inflamação intraocular, que pode atingir, por contiguidade, estruturas nobres do olho como a retina, o nervo óptico e o vítreo (gel transparente que preenche e dá forma ao globo ocular e que fica turvo com a inflamação).

Dor: a dor ocular é decorrente da irritação das terminações nervosas sensitivas do olho. Varia em cada paciente dado o seu caráter subjetivo.

Hipersensibilidade à luz (fotofobia): é uma dificuldade de enxergar na claridade; uma espécie de “rejeição” à luz. A intensidade do desconforto é variável. Ocorre com menor frequência em olhos saudáveis – em geral, olhos claros.

Moscas volantes: são pequenas manchas em forma de pequenos pontos, círculos, linhas ou teias de aranha que se movem no campo de visão; visíveis, principalmente, quando os pacientes olham para o céu azul ou para uma parede branca ao fundo. Nos pacientes com uveíte as células inflamatórias dispersas no vítreo provocam esse sintoma. Vale lembrar que podem estar presentes em pacientes sem nenhum problema ocular, não sendo exclusivas de pacientes com uveíte.

Como é feito o diagnóstico?

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O diagnóstico de uveíte deve sempre ser lembrado diante de um paciente com o olho vermelho. Confundi-la com uma conjuntivite pode ter efeitos trágicos por retardar seu diagnóstico e consequentemente seu tratamento.

Casos pouco sintomáticos são mais traiçoeiros, pois muitas vezes retardam a consulta com o oftalmologista.

O diagnóstico na grande maioria das vezes é clínico. Uma anamnese completa e cuidadosa associada a um criterioso exame oftalmológico nos fornece dados importantíssimos.

O oftalmologista então classifica a uveíte sob diversos critérios que o ajudam no raciocínio.

Formuladas as hipóteses diagnósticas, alguns exames complementares podem ser solicitados para a confirmação do diagnóstico, assim como interconsultas com outras especialidades médicas dado o caráter sistêmico de muitas uveítes.

Quais são os danos que pode causar no organismo?

Os danos causados pela uveíte propriamente dita são restritos aos olhos:

Hipertensão ocular;

Glaucoma secundário;

Descolamento de retina;

Catarata;

Neurite óptica;

Cicatrizes coriorretínicas;

Edema macular cistoide;

Oclusões vasculares, entre outras.

No entanto, as doenças sistêmicas que cursam com acometimento inflamatório ocular (uveítes) podem acarretar danos variados no organismo, de acordo com suas próprias características clínico-patológicas.

 Há prevenção?

Não há prevenção para a uveíte propriamente dita, visto não se tratar de uma doença. No entanto existe prevenção para várias doenças a ela relacionadas.

As orientações preventivas variam de acordo com a causa:

Doenças infecciosas: lavar as mãos, higiene pessoal, saneamento básico, evitar contato com doentes, evitar aglomerações, proteção nas relações sexuais, evitar a promiscuidade, lavar os alimentos, etc.;

Traumática: prevenção de acidentes, uso do cinto de segurança, utilização de equipamento de proteção individual (EPI) no trabalho, evitar situações de risco, etc.

Para as uveítes de causa autoimune e idiopáticas não existem medidas preventivas dado o caráter intrínseco do processo inflamatório.

Existe uma forma de tratamento?

O paciente com uveíte merece atenção especial, pois deve ser encarado como tendo uma doença complexa e não como portador de um problema simples e confinado ao olho.

Requer do oftalmologista profundo conhecimento da fisiopatologia ocular e sistêmica para permitir uma integração com outras especialidades no tratamento de cada caso. 

As uveítes podem representar um quadro ocular grave e devem ser tratadas o mais rápido possível.

O arsenal terapêutico é bastante vasto, com medicações tópicas e sistêmicas.

Nas uveítes infecciosas podemos utilizar medicamentos específicos para tratar a causa da doença:

• Antibióticos: infecções bacterianas;

• Antifúngicos: infecções fúngicas;

• Antivirais: infecções virais;

• Antiparasitários: infecções parasitárias.

Para o tratamento de doenças reumatológicas, autoimunes ou de causa desconhecida:

• Corticoides;

• Imunomoduladores.

Imunossupressores e pulsoterapia podem ser necessários em casos mais graves, muitas vezes refratários aos tratamentos inicialmente prescritos.

A participação de mecanismos imunológicos variados contribui para agravar o caráter de cronicidade do caso, e por isso esses medicamentos, em geral, são utilizados por tempo prolongado. Dessa forma, a integração entre as várias especialidades médicas é muito importante no seguimento dos pacientes com uveíte.

Dr. Carlos Eduardo Villas Bôas Júnior - CRM/SP 94667 - é pós-graduado em Administração de Serviços de Saúde pela Universidade Federal de São Paulo, com aperfeiçoamento (fellow) em Uveítes pela Seção de Uveítes da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo. Possui título de Especialista em Oftalmologia pelo Conselho Brasileiro de Oftalmologia. É médico assistente da Seção de Uveítes do Departamento de Oftalmologia da Santa Casa de São Paulo, diretor clínico da Aptomed Saúde Integrada e chefe do Serviço de Oftalmologia do Hospital Paulista.

Ilustrações de Felipe Teixeira.

 

        

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Comentários

Muito bom esse Post! Gostei muito..( vou imprimir e colocar lá no meu trabalho)
Mas, gostaria de fazer uma pergunta sobre degeneração de mácula ( a minha vó tinha e ficou quase sem visão ) é verdade que óculos de sol pode evitar o surgimento dessa doença ?
Um abraço, Luciana