Automedicação no Brasil

A automedicação no Brasil: um sintoma a ser analisado               

            Como pode o Brasil apresentar um quadro precário de saúde pública e, no entanto, estar no ranking dos países que mais consomem medicamentos no mundo?
            A automedicação crescente no país é um fato verídico. Mas seria um sintoma da cultura ou um sintoma na cultura?
            A indústria farmacêutica utiliza-se de todas as ferramentas do marketing para vender medicamento como mercadoria qualquer. Obscenidade?
            Questões como essas é que vão direcionar o estudo desse trabalho, desenvolvido a partir das aulas de Semiótica Psicanalítica, ministrada pelo Prof. Dr Oscar Cesarotto, na PUC de São Paulo.
            A indústria farmacêutica mundial é considerada como o segundo melhor negócio do planeta, ficando atrás apenas de companhias de petróleo. Segundo a revista inglesa “Focus”,o setor faturou em 2002, 406 bilhões de dólares (Revista SuperInteressante, fev. 2003, p 44).
            O Brasil está entre os 5 maiores consumidores de medicamentos no mundo, pudera, são mais de 32 mil rótulos de medicamentos, com 12 mil substâncias, quando na verdade bastariam 300 itens. Há uma drogaria para cada 3 mil habitantes, mais que o dobro recomendado pela Organização Mundial de Saúde.
            O sintoma capitalista se faz presente no país, pela comunicação mercadológica, onde um medicamento vale mais que seu valor terapêutico, já que o invólucro que protege  a substância, a embalagem, a distribuição, a propaganda, enfim, as ferramentas utilizadas pelo mercado da indústria farmacêutica, encarecem, e muito, o medicamento. Fato que não ocorre, por exemplo, em Cuba.
            O Brasil está longe de ser um país de primeiro mundo, é rotulado como país em desenvolvimento, mas teoria à parte, os números mostram a verdadeira realidade e são números alarmantes, quando comparados ao consumo de medicamentos da população de países de primeiro mundo. Aqui, vende-se mais remédio do que pão!
            Medicamentos de venda livre, também conhecidos como OTC e mesmo os éticos, que deveriam ser vendidos apenas sob prescrição dos médicos, são vendidos por telefone ou internet (Revista SuperInteressante, fev. 2003, p44). Os próprios balconistas de farmácias, incentivados pela poderosa indústria farmacêutica, receitam analgésicos e indicam medicamentos de tarja vermelha (éticos) aos consumidores, prováveis doentes.
            E como se não bastasse a falta de fiscalização ou controle, o Brasil é considerado culturalmente, como a população que adora se automedicar, ou seja, toma desde o chá da vovó até analgésicos e antiinflamatórios disponíveis em farmácias e drogarias. Também é considerado um dos maiores consumidores de ansiolíticos, onde 75% das mulheres são responsáveis por uso indiscriminado de tranqüilizantes.
            Segundo publicação na revista brasileira “Terra”, a questão cultural da automedicação do brasileiro é constatada pela Organização Mundial de Saúde (OMS). Pois ainda nos tempos atuais, em algum momento, as pessoas recorrem à prática de curar-se por meio de plantas medicinais (Revista Terra, jun. 2004, p 61). No norte e nordeste do país é comum a venda de “garrafadas” (feitas à base de plantas e rezas) que prometem verdadeiros milagres. Em cada parte do país, seja por uma questão geográfica e até cultural, as pessoas encontram novas formas de se automedicar, seria um sintoma da  cultura.
            Nesse sentido, há de se preocupar com o uso abusivo de medicamentos e processos voluntários de cura, que colocam o país também com índices alarmantes de morte por intoxicação, cerca de 30% das intoxicações são causadas por medicamentos (Revista Superinteressante, fev 2003, p 45).
            Esse alto índice de automedicação da população brasileira também tem forte relação com o mercado ocupado pela indústria farmacêutica, que não mede esforços através das ferramentas de marketing, das propagandas e das drogarias adaptadas a verdadeiros supermercados. Tudo para vender medicamentos e até criar uma cultura desenfreada de consumo excessivo dos mais variados medicamentos. Seria então, o sintoma na cultura.
            Medicamento é droga, portanto os remédios têm efeitos colaterais. Os antialérgicos causam sonolência; antibióticos fazem mal aos rins; cortisona provoca pressão alta e por aí vai...Sendo assim, nenhum medicamento poderia ser consumido sem o acompanhamento de um médico.
            A automedicação no Brasil já é um problema grave de saúde pública.O medicamento é visto como mercadoria comum, os doentes como meros clientes e apenas um terço dos medicamentos vendidos por ano vem de prescrições médicas. 
            No Brasil, o número exagerado de lançamentos feitos ano a ano amplia as prateleiras e ao tratarem medicamentos como produto qualquer (às vezes prometendo efeitos irreais), a propaganda conseguiu aumentar as vendas em 21% em apenas um ano (Revista SuperInteressante, fev. 2003, p 46). Mais uma vez, uma obscenidade sem controle!
            A farmácia, considerada como ponto de venda, também pode ser uma das grandes responsáveis pela automedicação no país. Quase 55 mil estabelecimentos desse tipo, nem sempre tem o profissional farmacêutico, mas sim balconistas inexperientes, alvo certo de laboratórios que oferecem prêmios, brindes na conhecida “empurroterapia”, aonde o paciente chega com a receita, e sai com o medicamento indicado pelo balconista, que muitas vezes vende medicamentos controlados sem receita (Revista Isto É, 10 de out. 2001, p 84).
            São inúmeros fatores que fazem parte desse contexto, mas sem dúvida o sintoma cultural e a falta de informação fazem com que a população brasileira seja vítima da situação. A indústria farmacêutica, que investe milhões em pesquisas buscando a cura das pessoas, é a mesma que não mede esforços ao recorrer a todo tipo de marketing e propaganda para esvaziar as prateleiras das farmácias. Essa atitude que pode ser considerada obscena, muitas vezes é analisada como um simples sintoma na cultura e, portanto, desprezada por autoridades.
Em quem confiar?
            Como se não bastasse o poder da indústria farmacêutica em altos investimentos de marketing, ela encontra como parceira: muitos médicos e a mídia de massa, que legitima algumas informações e divulga muitas vezes, sem responsabilidade, medicamentos a leigos, que não deveriam receber determinada informação sem orientação de um  profissional da saúde.
            Como disse Cesarotto em uma de suas aulas (05/05/2004), a indignação está na percepção de que o medicamento passou a ser “super-fluo”, ou seja, além da necessidade e do supérfluo. Passou a ser utilizado a qualquer momento, por qualquer um, como mercadoria qualquer. Na verdade, uma automedicação que tende a crescer ainda mais, caso não haja boa vontade de órgãos fiscalizadores em cumprir leis e controlar a situação.
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Comentários

Dr. José Hamilton Vargas

Em uma palestra ouvi que existe diferença entre auto-prescrição e auto-medicação, sendo que esta última seria algo positivo, inclusive recomendada pela OMS.

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